Skip links

Insulina glargina no SUS: o que muda no tratamento do diabetes

Insulina glargina no SUS: o que muda no tratamento do diabetes

O Sistema Único de Saúde iniciou em 2026 uma mudança importante na insulinoterapia: a transição gradual da insulina NPH para a insulina glargina, um análogo de insulina de ação prolongada.

A estratégia começou nacionalmente com crianças e adolescentes de 2 a menos de 18 anos com diabetes tipo 1 e pessoas a partir de 70 anos com diabetes tipo 1 ou tipo 2. Segundo o Ministério da Saúde, a ampliação para outras faixas deverá ocorrer gradualmente, conforme avaliação técnica, organização da rede e disponibilidade do medicamento.

Para quem vive com diabetes, porém, a notícia pode gerar algumas perguntas: o que diferencia a glargina das insulinas que já eram disponibilizadas pelo SUS? Ela é melhor que a NPH? Quem poderá recebê-la? E o que muda na rotina de quem utiliza insulina?

Antes de entender a mudança, é importante compreender o papel da própria insulina no organismo.

O que é insulina e por que ela é tão importante?

A insulina é um hormônio produzido pelas células beta do pâncreas e participa diretamente do controle da glicose no sangue.

Quando nos alimentamos, parte dos carboidratos é transformada em glicose. Essa glicose chega à circulação e funciona como uma importante fonte de energia para o organismo. A insulina ajuda diferentes tecidos a utilizá-la e também reduz a produção de glicose pelo fígado.

Em uma pessoa sem diabetes, esse processo acontece continuamente: existe uma secreção basal de insulina ao longo do dia e da noite e aumentos de sua liberação em resposta às refeições.

É justamente essa fisiologia que os diferentes tipos de insulina utilizados como medicamentos procuram reproduzir.

As insulinas basais, como NPH e glargina, têm como principal função controlar a glicemia entre as refeições e durante a noite. Já as insulinas utilizadas para cobrir as refeições atuam predominantemente sobre a elevação da glicose após a alimentação. Essa distinção é particularmente importante no diabetes tipo 1, no qual o tratamento procura equilibrar os componentes basal e prandial.

Por que algumas pessoas com diabetes precisam usar insulina?

Diabetes não é uma única doença e, por isso, a necessidade de insulina depende principalmente do tipo de diabetes e da situação clínica de cada pessoa.

Diabetes tipo 1

No diabetes tipo 1, o sistema imunológico destrói as células beta pancreáticas responsáveis pela produção de insulina. Como consequência, o organismo passa a produzir pouca ou nenhuma insulina em quantidade suficiente.

Por isso, a insulinoterapia não é apenas uma das alternativas de tratamento: a reposição de insulina é essencial para a vida desde o diagnóstico.

Diabetes tipo 2

No diabetes tipo 2, a situação é diferente. O organismo inicialmente pode continuar produzindo insulina, mas não consegue utilizá-la adequadamente e, ao longo do tempo, também pode ocorrer redução progressiva da capacidade de produção pancreática.

Muitas pessoas conseguem manter o controle da glicemia por períodos prolongados com mudanças no estilo de vida e medicamentos não insulínicos. Outras podem precisar de insulina em algum momento da evolução da doença.

A indicação deve ser individualizada. Em pessoas com diabetes tipo 2, a insulina pode ser necessária, por exemplo, quando o controle glicêmico permanece inadequado apesar de outras estratégias terapêuticas ou em determinadas situações de hiperglicemia importante e descompensação clínica.

Começar a usar insulina, portanto, não significa que o paciente “falhou” no tratamento. Em muitos casos, ela representa simplesmente a estratégia terapêutica necessária diante da fisiologia e da evolução da doença.

O que é a insulina glargina?

A insulina glargina é um análogo de insulina basal de ação prolongada.

Sua formulação foi desenvolvida para produzir uma liberação mais prolongada e relativamente estável após a aplicação subcutânea. Na estratégia atualmente adotada pelo Ministério da Saúde, ela é administrada, em geral, uma vez ao dia, em horário fixo.

Isso a diferencia da insulina NPH, uma insulina humana de ação intermediária que historicamente ocupa papel central no tratamento oferecido pelo SUS e que, dependendo do esquema terapêutico, pode exigir mais de uma aplicação diária.
A diferença não está simplesmente na duração.

O perfil farmacológico mais estável dos análogos basais também pode ter implicações sobre um dos principais riscos da insulinoterapia: a hipoglicemia, situação em que a concentração de glicose no sangue cai excessivamente.

Glargina é melhor que NPH?

Tanto a NPH quanto a glargina são capazes de controlar a glicemia e continuam sendo insulinas efetivas quando utilizadas adequadamente. A vantagem da glargina não significa que a NPH seja uma insulina “ruim” ou que todo paciente em uso de NPH esteja recebendo tratamento inadequado.

A diferença aparece principalmente no perfil de ação, na previsibilidade e no risco de determinadas hipoglicemias.

Os Standards of Care in Diabetes 2026 da American Diabetes Association apontam que, em pessoas com diabetes tipo 2, tanto a NPH quanto análogos de longa duração podem atingir as metas de glicemia de jejum. Entretanto, estudos clínicos com glargina U-100 demonstraram menor risco de hipoglicemia clinicamente relevante e de hipoglicemia noturna em comparação com a NPH.

Essa diferença ganha especial importância em grupos mais vulneráveis às consequências da hipoglicemia, como crianças e pessoas idosas.

A avaliação técnica, portanto, é mais precisa quando dizemos que a glargina oferece vantagens específicas de segurança e conveniência para determinados pacientes, e não simplesmente que é uma insulina universalmente “melhor”.

O que mudou com a insulina glargina no SUS?

A mudança atual é resultado de um processo que vem sendo construído há alguns anos. Os análogos de insulina de ação prolongada já haviam sido incorporados ao SUS para determinadas pessoas com diabetes tipo 1. Em novembro de 2024, após avaliação da Conitec, o Ministério da Saúde também incorporou os análogos de ação prolongada para o tratamento do diabetes tipo 2, sob condições estabelecidas para sua implementação.

Em 2026, após uma fase piloto realizada no Amapá, Distrito Federal, Paraíba e Paraná, o Ministério da Saúde iniciou a estratégia nacional de transição gradual da insulina NPH para glargina na Atenção Primária à Saúde.

Neste primeiro momento, são elegíveis:

  • crianças e adolescentes com diabetes tipo 1, a partir de 2 anos e antes de completar 18 anos;
  • pessoas com 70 anos ou mais, com diabetes tipo 1 ou diabetes tipo 2;
  • novos pacientes diagnosticados que se enquadrem nesses mesmos grupos.

Além da idade e do diagnóstico, o acesso depende de avaliação clínica individualizada, prescrição válida e dos fluxos assistenciais definidos localmente. A implantação ocorre de maneira gradual em todo o país e depende também da organização e logística de estados e municípios.

Quem completar 18 anos durante a implementação poderá permanecer no esquema já estabelecido, sem interrupção do tratamento. Pacientes que já recebem insulinas pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (Ceaf), por sua vez, devem continuar seguindo as regras desse componente neste momento.

Por que a chegada da glargina à Atenção Primária do SUS é importante?

Há pelo menos três dimensões relevantes nessa mudança.

1. Simplificação do tratamento

A glargina utilizada nessa estratégia é administrada, em geral, uma vez ao dia. Para pessoas que necessitam de múltiplas aplicações de NPH como insulina basal, isso pode representar uma rotina mais simples.

Simplificar um esquema não é apenas uma questão de conveniência. Um tratamento que consegue se integrar melhor à rotina do paciente pode favorecer sua execução adequada, embora adesão dependa de muitos outros fatores.

2. Segurança em relação à hipoglicemia

A hipoglicemia é um dos eventos adversos mais importantes da insulinoterapia.
O próprio Ministério da Saúde destaca crianças, adolescentes e idosos como grupos de maior vulnerabilidade clínica e risco de hipoglicemia e considera a necessidade de esquemas terapêuticos mais estáveis e seguros na definição do público inicial da estratégia.

Em pessoas com diabetes tipo 2, ensaios clínicos analisados nas recomendações atuais também sustentam menor risco de hipoglicemia noturna e de hipoglicemia clinicamente relevante com glargina U-100 em comparação com NPH.
Isso ajuda a explicar por que os idosos estão entre os primeiros grupos contemplados pela transição.

3. Ampliação do acesso a uma opção terapêutica mais moderna

Até recentemente, o acesso amplo a análogos basais pelo sistema público era mais restrito. Levar a glargina para a Atenção Primária significa ampliar o acesso a essa tecnologia para uma população muito maior e aproximar parte da insulinoterapia disponível no SUS das opções utilizadas atualmente na prática clínica.

A decisão da Conitec de incorporar análogos de ação prolongada para diabetes tipo 2 também considerou aspectos de custo-efetividade e impacto orçamentário; entre glargina, detemir e degludeca, a análise apontou vantagens econômicas da glargina dentro das condições avaliadas.

A mudança também tem uma razão estratégica para o SUS

A transição não ocorreu apenas porque a glargina apresenta vantagens clínicas.

O Ministério da Saúde relata um cenário internacional de restrição na produção e no acesso às insulinas humanas, incluindo a NPH. A estratégia com glargina também procura diminuir essa dependência e garantir maior segurança de abastecimento para milhões de pessoas que não podem interromper a insulinoterapia.

Portanto, a decisão combina critérios clínicos, assistenciais, econômicos, logísticos e de segurança de abastecimento.

Essa é uma diferença importante entre avaliar uma tecnologia para um paciente individual e decidir incorporá-la a um sistema público de saúde.

Quem usa NPH deve trocar imediatamente para glargina?

A Nota Técnica do Ministério da Saúde recomenda a substituição da NPH pela glargina para as pessoas que atendem aos critérios da estratégia de transição, mas estabelece que a mudança deve ocorrer com avaliação clínica individualizada e acompanhamento.

Embora ambas sejam insulinas basais, a troca não significa simplesmente substituir uma caneta pela outra mantendo automaticamente o mesmo esquema.

A dose pode precisar ser recalculada conforme o esquema anterior de NPH, e o Ministério da Saúde recomenda monitoramento da glicemia e avaliações mais frequentes especialmente nas primeiras semanas após a transição.

Também é importante entender que substituir a insulina basal não significa automaticamente substituir a insulina utilizada nas refeições. Em pessoas que utilizam esquemas basal-prandiais, cada componente possui uma função diferente.

Por isso, quem utiliza NPH não deve alterar tipo, dose ou frequência de insulina sem orientação da equipe responsável pelo tratamento.

Como conseguir insulina glargina pelo SUS?

Para o público contemplado pela estratégia nacional, o acesso ocorre pela rede do SUS, com participação da Atenção Primária à Saúde, mediante avaliação clínica e prescrição. O Ministério da Saúde informa que a oferta está sendo implantada nacionalmente de forma gradual.

Na prática, como a execução é descentralizada, o fluxo de dispensação pode variar conforme o município ou estado. Por isso, a Unidade Básica de Saúde responsável pelo acompanhamento é o ponto adequado para confirmar como está organizada a disponibilização no território.

Atualmente, pertencer ao público elegível não significa que uma pessoa deva trocar sua insulina de maneira automática. A indicação continua dependendo da avaliação clínica.

E quem não está nas faixas etárias contempladas?

A estratégia nacional começou por grupos específicos, mas o Ministério da Saúde afirma que a ampliação das faixas etárias elegíveis será gradual e baseada em análises técnicas.

Isso significa que a política ainda está em implementação.

Também não significa que nenhuma pessoa fora desses grupos possa ter acesso a análogos de longa duração pelo SUS: existem fluxos e critérios anteriores, especialmente relacionados ao diabetes tipo 1 e ao Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, que não foram simplesmente substituídos pela nova estratégia.

Por isso, é importante diferenciar a nova transição nacional pela Atenção Primária das demais formas de acesso já existentes.