A reposição de testosterona (TRT: Terapia de Reposição de Testosterona) é um recurso terapêutico estabelecido para homens com hipogonadismo confirmado, ou seja, com sintomas compatíveis e níveis séricos persistentemente baixos de testosterona. Nos últimos anos, a prática e as evidências científicas sobre TRT foram aperfeiçoadas: sabemos melhor quem se beneficia, quais ganhos esperar e quais riscos monitorar. Este artigo explora, à luz das principais diretrizes e estudos clínicos, os benefícios comprovados da reposição hormonal quando indicada corretamente, e como balancear eficácia e segurança na prática clínica.
Indicação clínica: quem deve receber reposição?
A TRT é indicada apenas para homens com sintomas sugestivos (queda de libido, disfunção erétil refratária a outras medidas, fadiga, perda de massa muscular, osteopenia/osteoporose associada, alterações cognitivas suspeitas) e com dosagens séricas de testosterona total (ou livre, conforme contexto) repetidamente abaixo do valor de referência. A recomendação é baseada em critérios clínicos e laboratoriais, não se prescreve testosterona apenas por fadiga ocasional ou por desejo estético. As diretrizes clínicas da Endocrine Society e outras sociedades médicas reforçam essa conduta.
Benefícios comprovados da TRT (e suas evidências)
A literatura científica demonstra benefícios consistentes em domínios específicos quando a terapia é aplicada a homens hipogonadais. Abaixo, as principais áreas em que há evidência robusta:
Melhora da função sexual (libido e ereção)
Um dos ganhos mais consistentes descritos em ensaios clínicos e meta-análises é a melhora da libido e de várias dimensões da função sexual. Em homens com níveis baixos de testosterona e sintomas sexuais, a reposição tende a aumentar o desejo sexual, melhorar a satisfação e reduzir queixas relacionadas à função erétil (especialmente quando existe deficiência hormonal comprovada). Meta-análises mostram efeito estatisticamente significativo na melhora de escores como o IIEF (International Index of Erectile Function).
Implicação prática: para homens com hipogonadismo e queixas sexuais, a TRT é uma opção terapêutica válida e muitas vezes efetiva; contudo, a avaliação deve excluir causas vasculares, neurológicas ou medicamentosas que também expliquem disfunção erétil.
Aumento da massa magra e composição corporal favorável
Ensaios clínicos randomizados demonstram que a reposição de testosterona aumenta massa magra (lean body mass) e reduz parcialmente a gordura corporal, sobretudo quando combinada com atividade física e adequação nutricional. Essa resposta anabólica é mais evidente em homens com deficiência androgênica franca; o ganho de força muscular é mais heterogêneo nos estudos, mas muitos mostram incremento de força funcional ou resistência muscular.
Implicação prática: a TRT pode ser parte de um programa para recuperar massa e função muscular em homens hipogonadais, especialmente em contexto de sarcopenia ou fragilidade, sempre aliada a exercício resistido e reeducação nutricional.
Melhora da densidade mineral óssea (saúde óssea)
Estudos sobre a ação da testosterona nos ossos mostram aumento de densidade mineral óssea em locais como a coluna lombar e melhora de marcadores bioquímicos do remodelamento ósseo (indicativos de efeito benéfico sobre prevenção da perda óssea). Embora faltem grandes ensaios com desfechos finais como fraturas a longo prazo, os dados suportam o uso de TRT como um componente de estratégia para preservar massa óssea em homens hipogonadais.
Implicação prática: em pacientes hipogonadais com osteopenia/osteoporose, a reposição pode ser considerada em conjunto com medidas específicas para saúde óssea (cálcio, vitamina D, exercícios, e quando indicado, terapias anti-fratura).
Efeitos sobre humor, energia e sintomas depressivos
A evidência aponta para melhora de sintomas depressivos leves a moderados, sensação de vitalidade e qualidade de vida em homens hipogonadais tratados com testosterona, especialmente quando os sintomas estão diretamente relacionados à deficiência androgênica. Algumas metanálises e RCTs indicam redução de escores de depressão e melhora de motivação/energia. Entretanto, os resultados variam conforme desenho, dose e população estudada, assim como a presença de comorbidades.
Implicação prática: a TRT pode ser benéfica em homens com sintomas depressivos associados a hipogonadismo documentado, mas não substitui tratamentos psiquiátricos quando a depressão é primária.
Efeitos metabólicos: glicemia, gordura hepática e anemia
Dados apontam para efeitos favoráveis em alguns parâmetros metabólicos:
- Glicemia / resistência insulínica: estudos indicam melhora modesta na sensibilidade à insulina e na composição corporal (menos gordura visceral), que podem contribuir para um perfil metabólico melhor; porém, TRT não é tratamento primário para diabetes e os efeitos variam.
- Esteatose hepática (MASLD): evidências emergentes sugerem que homens hipogonadais podem apresentar melhora na esteatose com TRT, mas são necessários mais dados controlados.
- Anemia: a testosterona estimula eritropoiese; em pacientes com anemia por deficiência de andrógenos, TRT pode normalizar hemoglobina, sendo este um efeito positivo quando monitorado.
Implicação prática: TRT pode contribuir para melhora de parâmetros metabólicos em pacientes selecionados, mas não substitui intervenções como dieta, atividade física e tratamentos específicos para diabetes ou doença hepática.
Segurança e efeitos adversos: o que a evidência atual mostra
Nenhum tratamento é isento de riscos; por isso, a decisão de repor testosterona exige avaliação criteriosa e monitorização. Os principais pontos de atenção:
Risco cardiovascular
Historicamente, houve controvérsias sobre risco cardiovascular com TRT, relatos iniciais sugeriram associação com eventos isquêmicos; estudos subsequentes, entretanto, apresentaram resultados divergentes. Ensaios randomizados bem conduzidos e metanálises mais recentes demonstram ausência de aumento claro de eventos cardiovasculares quando a terapia é usada em homens hipogonadais com monitorização apropriada, embora alguns estudos observacionais continuem a sugerir cautela em populações específicas (idosos com múltiplas comorbidades). Organismos reguladores (como a FDA) têm revisado informações de segurança, equilibrando benefícios e riscos. A rigorosa avaliação do risco cardiovascular antes de iniciar TRT e o acompanhamento regular (pressão, lípides, hematócrito) são fundamentais.
Policitemia (eritrocitose)
A eritropoiese estimulada pela testosterona pode elevar o hematócrito/hemoglobina, aumentando o risco de trombose se não monitorada. Por isso, checar níveis basais e repetir hemograma (após 3-6 meses e periodicamente) é padrão, e suspender ou reduzir dose se hematócrito exceder limites seguros.
Fertilidade e atrofia testicular
A administração exógena de testosterona suprime o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, reduzindo a produção endógena de testosterona e espermatozoides, levando à atrofia testicular e infertilidade em muitos casos. Em homens que desejam preservar fertilidade, alternativas (gonadotrofinas, inibidores da aromatase ou estratégias específicas) devem ser discutidas.
Risco oncológico e próstata
Embora a testosterona possa estimular crescimento em tumores androgeno-dependentes, a relação entre TRT e câncer de próstata não é simplista; diretrizes recomendam avaliar risco prostático (exame clínico e PSA) antes de iniciar e monitorizar regularmente durante a terapia. TRT é contraindicado em homens com câncer de próstata ativo ou suspeito.
Efeitos em fígado e pele
Formas orais 17-alpha-alquiladas estão associadas a hepatotoxicidade; atualmente são menos utilizadas. Reações cutâneas locais podem ocorrer com géis/transdérmicos. Monitorização laboratorial regular é necessária.
Como a prática clínica maximiza benefícios e minimiza riscos
A segurança e eficácia da TRT dependem de seleção adequada do paciente, escolha da formulação e dose, monitorização rigorosa e revisão periódica da necessidade de manutenção da terapia. Algumas recomendações práticas baseadas em evidências e diretrizes:
- Confirmar deficiência: medir testosterona total matinal em duas ocasiões diferentes; quando necessário, avaliar testosterona livre. Sintomas sem hipogonadismo laboratorial não justificam TRT.
- Avaliar comorbidades: checar risco cardiovascular, PSA e função hepática; discutir desejo reprodutivo.
- Escolher formulação individualizada: géis, adesivos, injetáveis de ação curta ou longa; cada forma tem vantagens e perfil de efeitos.
- Monitorizar: hemograma, PSA, função hepática, perfil lipídico e sintomas clínicos regularmente (3-6 meses iniciais, depois anual ou conforme necessidade). Ajustar dose conforme resposta clínica e níveis séricos.
Quando a TRT traz real melhora clínica?
A reposição de testosterona é uma terapia com benefícios clínicos bem documentados quando aplicada a homens com hipogonadismo confirmado. Os ganhos mais evidentes ocorrem na esfera sexual (libido e função erétil), composição corporal (massa magra), saúde óssea e bem-estar/energia. Porém, a prática responsável exige diagnóstico rigoroso, exclusão de contraindicações, escolha individualizada de formulação e monitorização regular para minimizar riscos (policitemia, risco cardiovascular, infertilidade, crescimento prostático). A decisão terapêutica deve ser compartilhada entre médico e paciente, ponderando expectativas, metas e tolerância a eventuais efeitos adversos.
Referências selecionadas (para consulta e aprofundamento)
Endocrine Society Clinical Practice Guideline: Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism (Bhasin et al., JCEM 2018).
Meta-análises sobre função sexual e TRT (Corona et al.; Ponce et al.).
Revisões sobre efeitos na massa muscular e composição corporal.
Revisões sobre efeito ósseo da testosterona.
Estudos e revisões sobre humor e sintomas depressivos.
Atualizações sobre segurança cardiovascular e posicionamentos regulatórios (estudos recentes e revisão da FDA sobre rotulagem).
