Como médico endocrinologista, venho alertar sobre uma prática preocupante e, infelizmente, crescente no meio médico: a chamada soroterapia (ou infusões intravenosas de vitaminas, minerais e outros “nutrientes”) com finalidades estéticas, de “performance”, emagrecimento ou “reposição de energia” em indivíduos saudáveis.
É fundamental que você saiba:
A soroterapia é um “Modismo”?
A soroterapia consiste na administração de soluções contendo vitaminas, minerais e outras substâncias diretamente na veia, com a promessa de diversos benefícios, como rejuvenescimento, aumento da imunidade, perda de peso ou ganho de massa muscular.
No entanto, quando utilizada para fins que não o tratamento de deficiências nutricionais comprovadas (como em casos de síndromes de má absorção, após cirurgias bariátricas, ou em estados carenciais graves documentados por exames), essa prática se torna um procedimento de risco e sem respaldo científico.
A falta de comprovação científica e a condenação ética
A esmagadora maioria das alegações sobre os benefícios da soroterapia para pessoas saudáveis não possui evidências científicas robustas que as sustentem.
Apesar de ser divulgada como solução milagrosa em redes sociais, a eficácia da maior parte dos coquetéis de soroterapia vendidos atualmente é baseada em relatos anedóticos e estratégias de marketing, e não em estudos clínicos de qualidade. O Conselho Federal de Medicina (CFM), assim como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e outras sociedades médicas, não recomenda (e inclusive condena) o uso da soroterapia para fins estéticos, ganho de performance ou “prevenção de doenças” em pacientes que não apresentem uma indicação clínica específica e documentada. A prescrição de procedimentos sem comprovação científica não apenas expõe o paciente a riscos desnecessários, como também compromete a credibilidade da prática médica.
Problemas e riscos reais para a saúde
A soroterapia desnecessária e indiscriminada não é inócua e pode causar danos sérios:
- Risco de Infecções: Qualquer acesso venoso (colocação do soro na veia) expõe o paciente ao risco de infecções locais ou sistêmicas (septicemia), especialmente se o procedimento não for realizado em ambiente hospitalar ou ambulatorial com padrões rigorosos de assepsia.
- Reações Alérgicas e Anafilaxia: A infusão de diversas substâncias de uma só vez aumenta o risco de reações alérgicas graves e até mesmo choque anafilático, que pode ser fatal.
- Sobrecarga Orgânica e Toxicidade: A administração de vitaminas e minerais em doses elevadas (megadoses), especialmente por via intravenosa, pode sobrecarregar rins e fígado. Vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K), por exemplo, podem se acumular e causar toxicidade perigosa.
- Danos Cardiovasculares: A infusão rápida de grandes volumes pode causar sobrecarga hídrica, perigosa para pacientes com problemas cardíacos ou renais.
O que é vendido como “elixir da vitalidade” é, na verdade, um procedimento de risco desnecessário para a maioria das pessoas, sendo que uma alimentação equilibrada e, quando necessária, a suplementação oral individualizada e monitorada são as vias mais seguras e eficazes.
O que fazer se um médico sugerir
Se você é um paciente saudável e um médico lhe sugerir a soroterapia com promessas de emagrecimento, melhora estética ou performance, PARE E QUESTIONNE:
- “Qual é a evidência científica que comprova a eficácia deste tratamento para o meu caso?”
- “Quais são os riscos documentados deste procedimento?”
- “Existe alguma deficiência documentada por exames que justifique a administração intravenosa?”
Se você sentir que a prática é antiética ou imprudente, ou se o médico não souber justificar o tratamento com base na ciência, você deve DENUNCIAR.
Onde Denunciar: As denúncias contra a conduta ética de um médico devem ser encaminhadas ao Conselho Regional de Medicina (CRM) do seu estado. A denúncia pode ser anônima e é fundamental para coibir práticas que colocam em risco a saúde da população.
Não se deixe levar por promessas vazias e modismos. Sua saúde é seu bem mais precioso. Confie na Medicina Baseada em Evidências.
